VIVIANE CLARA

CAMINHOS CRUZADOS

Ter fotografado o espetáculo É SAMBA NA VEIA É CANDEIA, me permitiu muito mais do que fazer belos registros fotográficos, foi a oportunidade de conhecer pessoas incríveis, cujo trabalho passei a acompanhar e admirar.

A virginiana Viviane Clara Bomfim integra esse seleto time. Seu talento pôde ser visto em três momentos da peça. Em um deles ela interpreta uma velha senhora torcedora da Portela, em outro uma passista que encantou o público com seu figurino reluzente e uma performance digna de uma apoteose na Marques de Sapucaí, mas foi interpretando uma prostituta em um desentendimento com Candeia, que aos meus olhos, Viviane viveu um momento máximo.

Depois do que vi e senti, não resisti ao impulso de convidar Viviane para um ensaio fotográfico e para minha sorte ela aceitou.

Paulistana filha de um casal de baianos, Viviane Clara cresceu na Zona Leste de São Paulo, como a maioria das meninas de sua época, uma infância simples, com seus folguedos e sonhos.

A figura materna sempre presente e dedicada, possibilitou a Viviane e seus três irmãos uma educação baseada no respeito e dignidade, o que lhe proporcionou um sólido alicerce sobre o qual projetaram suas vidas.

O sentimento de amor e carinho pelo semelhante fez aflorar na jovem Vivi o interesse pela enfermagem, com o desejo de acalentar aqueles que desventuradamente por alguma razão tiveram a saúde prejudicada.

Na faculdade de enfermagem Vivi, colocava todo seu empenho e dedicação, que em breve iriam coroar sua dura caminhada.

Mas o destino não lhe foi gentil e assim, como muitos outros jovens brasileiros, Viviane se desdobrava para cumprir uma vida de dupla jornada de trabalho e estudos.

Alimentada por seus sonhos e amparada pela família, Vivi se renovava a cada dia, na árdua caminhada em direção ao seu brilhante horizonte.

Viviane Clara, é um personagem de uma história real encenada nos escabrosos caminhos que inevitavelmente nos conduzem por um mundo onde a relação trabalho/capital é demasiado abusiva, resultando em lutas injustas e muitas batalhas perdidas. Como resultado dessa desigualdade, o sonho de se tornar Enfermeira Padrão foi sufocado pelo capitalismo selvagem que concentra riquezas nas mãos de poucos e distribuiu o peso da pobreza nos ombros de muitos.

Como derrota é para os fracos, Viviane não sucumbiu, apenas corrigiu sua trajetória, substituindo o curso de Enfermagem Padrão pelo de Técnica em Enfermagem, conservando o mesmo desejo de suavizar as agruras de seus semelhantes.

Porém o destino continuava a impor seus obstáculos. Subitamente Viviane foi acometida por um problema vascular e assim os projetos entraram em compasso de espera.

Após algum tempo, saúde recomposta, mangas arregaçadas e luta retomada e finalmente consegue se formar.

Com o curso concluído, a novata Técnica de Enfermagem concorreu e se classificou com louvores em um concurso que lhe permitiu se tornar 3º sargento de saúde do exército brasileiro.

Durante três anos a jovem enfermeira dedicou seu empenho e profissionalismo, aos pacientes que eram colocados aos seus cuidados. Mas o encanto com trabalho já não tinha mais o mesmo brilho dos primeiros meses. O convívio em um ambiente predominantemente machista e a rigidez do militarismo lentamente consumiam os sonhos daquela jovem mulher e assim seu espírito inquieto já almejava alçar novos voos.

Certa manhã ao se apresentar para o trabalho Viviane foi chamada ao gabinete do comandante em serviço. Enquanto caminhava pelos corredores que conduziam ao gabinete, a sargento tentava intuir o que o superior poderia desejar. Porém suas elucubrações sequer se aproximaram do que estava por acontecer.

Ao chegar no gabinete, recebeu do comandante uma informação que mudaria definitiva e radicalmente sua história. Um paciente que havia recebido seus cuidados nos serviços de enfermagem, havia se interessado por seu perfil e desejava que ela participasse como figurante em um filme que ele estava produzindo e foi assim que a sargento trocou o frígido e taciturno ambiente hospitalar pelo encantado e vibrante mundo dos palcos.

Seu desempenho como passista e sua experiência como integrante da Comissão de Frente da Escola de Samba Mocidade Alegre, foram seu passaporte para se apresentar em espetáculos de música brasileira na cidade de Seul, na Coréia do Sul.  Depois vieram Japão, Egito e Turquia, neste último chegou a morar por algum tempo, ocasião em que pode conhecer artistas de outras partes do mundo, como Etiópia, Rússia, Germânia, China, Mongólia, e também brasileiros.  Segundo Viviane essa experiência foi enriquecedora para seu amadurecimento como artista e como bicho humano (palavras da artista)

Como atriz, Viviane atuou na peça AS BACANTES no Teatro Oficina. Atualmente Viviane compõem o elenco do musical É SAMBA NA VEIA É CANDEIA e também da peça RODA VIVA além de estar se dedicando a trabalhos autorais que me enchem de curiosidade.

Sem receio de errar afirmo que Viviane Clara, é um exemplo de beleza, charme e empoderamento da mulher negra brasileira.

Axé Vivi.

 

Osmar Moura

Dezembro de 2018

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