SEMANA AFRIKANSE

DOIS CONTINENTES E UMA HISTÓRIA

Quando a família real aqui chegou, acompanhada de sua corte e muitos de seus súditos, encontrou nas terras tupiniquins muitas semelhanças com a terra onde seus berços ainda balançavam vazios.

Corpos exauridos pelas agruras da viagem, corações prostrados pela saudade dos que ficaram para trás, almas atarantadas com as incertezas do porvir e os desafios que irão enfrentar na terra onde doravante será seu lar.

Compulsoriamente trocaram a vida livre e feliz no aconchego da terra amada, pelo olhar macambúzio sob a vigilância de seus algozes que se assemelham a bestas na forma de homens.

Quase dois séculos de muito sangue vertido, a se misturar com o suor que escoava pelos corpos reluzentes de mulheres, homens e crianças que foram livremente concebidos pelo criador e covardemente escravizados por criaturas errantes.

Apesar dos escabrosos caminhos que lhes eram impingidos, jamais sucumbiram. O desejo da liberdade palpitava forte em seus corações e paulatinamente foram forjando o caminho para a liberdade sob a tutela e sabedoria dos líderes que surgiam de tempos em tempos.

A força e a estratégia de homens como Zumbi e a sabedoria e perspicácia de outros como Chico Rei, fortaleciam as batalhas diárias e a liberdade ia se desenhando dia após dia.

Ontem nossos ancestrais cruzaram o oceano nos porões dos navios negreiros trazidos pela diáspora africana, hoje espontaneamente cruzam o céu em poltronas de modernas aeronaves, vindo a fortalecer e abrilhantar e fortalecer nossa causa.

A semente trazida por nossos ancestrais germinou, criou profundas raízes, cresceu frondosa, floresceu e frutificou e em suas sobras acolhe os irmãos africanos que aqui chegam alimentando a chama da nossa luta contra o racismo que a sociedade com sua visão eurocentrada insistem em negar.

Que me desculpem os racistas e os preconceituosos, mas cada brasileiro, por mais alva que seja sua pele, carrega em si uma dose de herança africana, seja na culinária que alimenta seu corpo, na religião que acalenta seu espírito, no figurino que cobre sua nudez, na obra de arte que decora sua casa, no ritmo que anima suas festas e embala seu corpo ou no sangue que corre em suas veias. Sempre há um pedacinho da África pulsando em você.

A Semana Afrikanse realizada pelo SESC Paulista e Núcleo Coletivo das Artes com produção de Rita Teles e Ermi Panzo, aconteceu em comemorações do mês da Consciência Negra de 2018, e nos mostrou o quão agregadora é a presença de nossos irmãos africanos para o processo de aprofundamento das relações afro-brasileiras e da melhor compreensão de nossas raízes. Inúmeros artistas plásticos, escritores, dançarinos, pintores, cantores e poetas, emigrados de diversos países africanos e também brasileiros se encontraram durante uma semana em meio a uma intensa troca de informações e muito entretenimento.

Por maior que sejam as barreiras, jamais esmoreceremos. Caminharemos de mãos dadas até o dia em que a bandeira do respeito, dignidade e igualdade esteja a flamular altivamente em todos os cantos dessa grande nação.

Obrigado a todos envolvidos pela valiosa contribuição à causa negra.

Osmar Moura

Novembro de 2018

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