O DOCE SABOR DA RECOMPENSA

O DOCE SABOR DA RECOMPENSA

Revirando o velho baú das recordações, me deparo com a lembrança do dia que saímos de casa eu a Augusta (para quem não sabe, é minha esposa) rumo a mais uma roda de samba, da qual acumulava ótimas referências. Naqueles tempos, GPS e os inúmeros aplicativos de trânsito eram produtos apenas dos filmes de ficção. Chegava-se ao destino pretendido com o auxílio do velho e bom guia, ou por orientação quase sempre verbal, ou algumas raras vezes descrita na forma de um resumido croqui de localização. As orientações eram feitas usando referencias do tipo: “Vire na terceira à direita depois do mercado tal, aí você segue até uma esquina onde tem um posto de gasolina da bandeira tal e entre a esquerda, aí você segue até encontrar uma padaria amarela com toldos vermelhos, sobe a rua da padaria até o fim, vire a esquerda depois à direita…”.  Já dá para imaginar que chegar ao destino dependia da precisão das informações, e de uma boa dose de sorte.

Eu como um teimoso nato, raramente usava o guia, estando assim sujeito a uma grande dose de persistência para chegar ao destino e algumas vezes não me restava senão retornar para casa ou improvisar outra atividade.

Naquela tarde, depois de muitas esquerdas e direitas, subidas e descidas, resolvi retornar, pois já havia esgotado todos meus recursos de orientação e também minha pouca paciência.

Na tentativa de encontrar o caminho de volta, pois já estava “mais perdido do que cachorro que caiu do caminhão de mudanças”, paro em uma esquina tentando descobrir se deveria converter para a direita ou para a esquerda. Foi neste instante que reparei que na rua à direita, que iniciava com um leve aclive, a uma pequena distância havia um grupo de pessoas paradas no que me pareceu conversando animadamente. Foi neste instante que meu instinto falou: é ali.

Num estado entre irritação e alívio, converti e subi. Ao me aproximar o alívio suplantou a irritação. Cheguei.

Além da teimosia, carrego uma herança mineira, a desconfiança. Antes mesmo de estacionar, o fruto desta herança começou a por as mangas de fora, indagando se teria valido a pena todo empenho envolvido para chegar ao local.

Entrei curioso para tirar a limpo meus questionamentos, mas para minha surpresa o samba não estava rolando, cheguei no intervalo.

Se por um lado o silêncio “sambistico” me colocava em compasso de espera, por outro a presença de alguns frequentadores do antigo bar Quilombo e seus comentários endossavam tudo que já havia ouvido sobre aquela grandiosa roda de samba.

Hoje (17 de dezembro de 2017) ao me deleitar com a comemoração dos 15 anos do SAMBA DE TERREIRO DE MAUÁ, posso afirmar com absoluta convicção, a perseverança nos permite descobrir o doce sabor da recompensa.

O tempo passou, a dedicação se manteve inablavel e assim um grupo de jovens amantes da arte e da cultura negra trilharam uma longa e sinuosa estrada, lançando em suas margens sementes que germinaram gerando uma frondosa árvore cujos frutos nos remetem a profundas reflexões sobre nossa herança que tem origem na distante mãe África, passando pelos porões dos navios negreiros, pelas senzalas, pelos pelourinhos, quilombos, pelos movimentos abolicionistas, pelos morros, favelas, periferias. Com garra e determinação chegou nas universidades e continua marchando resolutamente para ocupar o lugar que a sociedade envolta em pré-conceitos insiste em lhe negar

Meu fraterno abraço  a todos envolvidos na construção de um novo tempo para o povo negro brasileiro.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error: conteúdo protegido!