MULHER, ARTE, NEGRITUDE E MILITÂNCIA

MULHER, ARTE, NEGRITUDE  E ATIVISMO

 

Para muitos mero entretenimento, para alguns informação e cultura, para poucos, entretenimento, cultura, informação, formação e acima de tudo transformação. A arte e seu poder transformador, se faz presente em todos os momentos da história da humanidade. Sob as mais variadas formas de manifestação, homens e mulheres de visão apurada e alma sensível, resgatam verdades soterradas pela tirania humana, levam luz às trevas, acalentam almas amarguradas, secam prantos de tristeza e dor, sugerem reflexões, apontam caminhos e despertam deliciosas gargalhadas.

Por meio da arte, as emoções se materializam, os pensamentos fluem e a sociedade pode se organizar em torno de um ideal comum.

Destaco aqui as artes performativas, onde o uso do corpo e da oralidade são ferramentas valiosíssimas com as quais o artista habilmente exerce seu importante trabalho de comunicador e transformador. Porém é importante salientar que todo trabalho artístico de qualidade é precedido de pesquisa e estudo continuado para que possa ser concluído com o êxito desejado. Como consequência desse processo, o artista constrói elevado senso crítico tornando-se formador de opinião e não raramente militante de importantes movimentos sociais.

Apesar do dito acima, ainda existe um grande abismo separando o mundo real do mundo ideal. No mundo real a arte preta bem como seus artistas, ainda precisam transpor enormes barreiras impostas por uma sociedade euro centrada, para conquistar o justo e merecido espaço, exigindo grande carga de esforço de nossos artistas.

Hoje Canto Nego traz uma artivista que ricamente engrossa o coro dos que labutam em busca do nosso raio de luz. Rita Teles.

Graduada em ciências contábeis, Rita atuou por anos no mundo corporativo, tornando-se altamente capacitada, tendo por vezes substituindo vários gerentes, porém sem oportunidades de acender na carreira por ser mulher e acima de tudo por ser mulher preta.

Desgastada com as amarras, aos 36 anos Rita resolve por fim a uma carreira de 15 anos,  libertando-se do racismo estrutural, deixando para trás  anos de convivência tóxica, e começa a desenhar um novo fim para sua história.

Com o apoio da família, passa a se dedicar ao mundo da arte. Perde o mundo corporativo, mas o mundo da arte ganha mais uma atriz dedicada e ascendente com um trabalho de valorização da arte e do artista negro.

Hoje Rita circula pelo mundo negro contemporâneo, seja no teatro, no samba ou nos quilombos urbanos. Frequentadora das rodas de samba e blocos afro, como os Ilu’s Obá e Inã, Rita se mantem intimamente ligada com os fatos cotidianos da causa negra.

Sua trajetória se renova dia-a-dia, com diversos trabalhos que não só promovem a arte e cultura negra, mas que também abre caminhos para novos artistas pretos e pretas.

Em novembro de 2018, em parceria com artista angolano Ermi Panzo, produziu A Semana Afrikanse, no SESC Paulista, promovendo rodas de conversa com artistas brasileiros e africanos de varias nacionalidades, ocasião em que o público teve oportunidade de conhecer algumas peculiaridades culturais dos dois lados do oceano.

No biênio 2017/2018, Rita atuou no palco e na produção do musical É Samba na Veia é Candeia, um espetáculo que permitiu ao publico conhecer a vida e obra do grande sambista e militante Antonio Candeia Filho.

Graduada em artes cênicas pela Universidade São Judas Tadeu, Rita vem consolidando sua carreira com inúmeros trabalhos relevantes no mundo das artes como atriz, produtora, arte educadora e articuladora social.

Fundadora Cia. Colhendo Contos e Diáspora Negra, com um trabalho que diverte e educa crianças ao mesmo tempo em que chama os adultos para uma reflexão sobre conceitos e preconceitos. Fundadora do Núcleo Coletivo Núcleo das Artes uma empresa dedicada a fomentar e difundir artistas pretos e pretas de diversas nacionalidades.

Rita Teles uma artivista que fez, das demandas do povo preto a principal bandeira que sustentada pelo mastro de sua arte, para que a diáspora negra africana não se torne apenas um ponto na página da dura história do povo que verdadeiramente erigiu esta nação.

 

 

Osmar Moura

Março de 2019

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