ENTRE DOIS MUNDOS

ENTRE DOIS MUNDOS

A arte de compor parece ter encontrado almas férteis em meio ao nosso povo. A música brasileira conta com incontável número de mestres nos seus diversos ritmos e em todos os momentos de nossa jovem, porém rica história.

Em minha modéstia opinião de leigo, acredito que a arte de compor por vezes é está ligada às emoções, vivencias e humor que habitam a alma dos artistas.

Um povo que durante séculos sofreu os escárnios de regimes totalitários e de uma sociedade capitalista, escravagista, euro centrada e preconceituosa certamente carrega em seu âmago experiências que deixam marcas profundas. Tendo que sofrer calados para não estimular a atrocidade de seus algozes, sussurravam melodias carregadas de emoções que aos poucos aliviavam suas dores e acalentavam suas magoas no silêncio da madrugada.

A tradição da oralidade, uma pratica comum entre os povos africanos, permitiu que toda essa carga de emoções e suas melodias silenciosas fossem transmitidas de geração em geração resultando em um manancial rico e para os sensíveis mestres da arte de compor das gerações futuras.

Com o advento da pseudo abolição, muitos dos libertos migraram para a periferia de áreas urbanas passando a ter contato com outras culturas. A partir dessa miscigenação cultural, a arte popular vai criando naturalmente novas formas de manifestação. Em um processo gradativo, continuado e natural, a africanidade vai criando um jeito preto de compor que aos poucos vai se enraizando e inspirando as pequenas comunidades e se multiplicando exponencialmente.

Não tardou para que uma legião de grandes compositores, músicos e cantores encantassem o mundo com o nosso velho e bom samba.

Feitos para passarmos rapidamente por esta humana existência, muitos de nossos mestres já se mudaram para outras esferas, onde certamente continuam criando maravilhosas obras, outros ainda se encontram em nosso convívio, merecendo todo nosso carinho e afeto. Afeto que no último sábado (01/12/2018) se materializou nos palcos do SESC Pompéia em uma homenagem que contou com dois mestres na Terra e um no céu. Um lindo espetáculo com a presença dos Mestres Elton Medeiros e Monarco homenageando o Mestre Cartola. O time contou ainda com as vozes de Adriana Moreira Yvison Pessoa e Vidal Assis sob o comando de Moisés da Rocha.

E assim o Samba segue brilhando em dois mundos emanando a energia de nossa ancestralidade através de sua encantadora melodia

 

 

 

Osmar Moura

Dezembro de 2018

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