ENTRE DANÇAS E HERANÇAS

ENTRE DANÇAS E HERANÇAS

Embora tenham nascidos em cidades vizinhas, foi em São Paulo que os caminhos dos mineiros Janice e Messias se cruzaram. Ele Natural de Entre Folhas e Janice nascida em Inhapim, trocaram a segurança e a vida tranquila de cidade do interior mineiro, pelos desafios e incertezas de uma cidade grande, em busca dos sonhos naturais da juventude. Durante a semana trabalhavam arduamente e nas folgas finais iam visitar parentes e conhecidos que também tinham se transferido para São Paulo. Foi assim que os jovens retirantes se conheceram, apaixonaram-se e constituíram família. Uma família tipicamente mineira, daquelas que preserva seus hábitos, sua culinária e sua cultura.

Apesar de terem criado raízes em São Paulo, nunca perderam o vínculo com suas origens. Viajavam regularmente para suas cidades visitando a parte da família que preferiu permanecer em Minas Gerais, sempre acompanhados das filhas Fabiana, Luana e Suelen.

Para Suelen, a caçula, o contato com suas origens exerceu grande influência nas escolhas que mais tarde iriam contribuir na consolidação de sua vida profissional. Naqueles tempos a menina aguardava ansiosamente as férias de dezembro, ocasião em que a família viajava para o interior de Minas Gerais. Era uma satisfação passar o dia brincando na roça, chupando cana, correndo atrás de galinhas ou subindo em alguma árvore para degustar uma fruta suculenta. Ao cair da noite todos se reuniam no interior da casa conversando animadamente ao lado do fogão de lenha enquanto a matriarca preparava o jantar. Nestas ocasiões os adultos falavam de acontecimentos do cotidiano, programavam as atividades do dia seguinte e contavam histórias pitorescas que as crianças ouviam atentamente. Para a pequena Suelen era um mundo mágico onde o lúdico estava sempre presente. Foi em uma dessas prosas que Suelen ouviu pela primeira vez a história da Mula Sem Cabeça. As férias passadas junto de suas raízes além proporcionar entretenimento, cultura e contato com ancestralidade, também serviam como um bálsamo para aliviar a tensão do cotidiano na periferia da cidade de Diadema na Grande São Paulo, onde a família morava. Era uma região com elevado nível de violência, e medo, gerando uma intranquilidade que deixava as meninas assustadas, mesmo não compreendendo o que se passava.

Na adolescência após quatro anos em seu primeiro emprego em um consultório odontológico, Suelen começa a perceber o peso das pressões econômicas, culturais, sociais e étnicas que tanto afetam os jovens periféricos, em especial os negros.

Surgem os primeiros conflitos de identidade. Negra de pele clara, e cabelo crespo, fora dos estereótipos ditados por uma sociedade racista e preconceituosa, Suelen tenta encontrar seu lugar em meio ao caos social que a rodeia. Enquanto viajava em suas profundas reflexões, inconscientemente passa a materializar a atração pela dança que nutria desde a infância. Resolve fazer da arte seu norte. Um novo universo se abre aos seus olhos, conhece novas pessoas, se encontra como mulher, se identifica como negra, assume seus cabelos e conquista seu espaço.

Graduada em Educação Artística, com habilitação em artes Cênicas, Suelen Ribeiro passa a desenvolver inúmeros trabalhos como contadora de histórias, atriz, arte educadora, dançarina e pesquisadora, reconhecendo agora a importância dos Griôs que atentamente ouvia em suas viagens ao interior de Minas Gerais. Com as amigas e atrizes Janaina Brizolla e Paloma Fraga, forma AS DOLORIDAS, um grupo de teatro que tem como foco a contação de histórias para o público infantil.

Hoje Suelen percorre o Brasil como pesquisadora, conhecendo com detalhes a riqueza de nosso folclore e por meio da oralidade vai bebendo na fonte inesgotável dos grandes Griôs que encontra em suas andanças.

Em novembro de 2017 Suelen participou do elenco do musical É Samba na Veia é Candeia interpretando brilhantemente a saudosa Clara Nunes.

Para saber mais sobre o trabalho de Suelen, visite a página Mãe D’Água no Facebook.

Osmar Moura

Janeiro de 2019

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