DO SAMBA AO SOUL

DO SAMBA AO SOUL

É na primeira infância que se desenha tudo que realizaremos quando adultos. O afeto dos familiares, os sons e as imagens do cotidiano e os brinquedos com os quais nos ocupamos a maior parte do tempo, paulatinamente norteiam o que será nossa vida adulta.  Invariavelmente os brinquedos da infância se tornam as ferramentas de trabalho ou os hobbies que abraçaremos apaixonadamente no decorrer de nossa humana existência.

Por vezes a jovem mãe Sonia Pereira ficava ligeiramente incomodada ouvindo o filho de quatro anos batendo continuamente no pequeno tambor que havia ganhado de presente, chegando a colocar o brinquedo fora do alcance da criança, na tentativa de estimular o interesse por outras atividades, mas não tardava a se render aos apelos do menino que só queria saber de bater em seu pequeno tambor.

Provavelmente o interesse pela música desabrochou por influência de um tio que é músico e nos finais de semana levava o menino a um bar das vizinhanças onde costumava tocar.

Sergio sentia grande atração pela música, em especial pelos instrumentos de percussão. Sempre atendo nos movimentos das mãos dos percussionistas e nos sons extraídos dos instrumentos, o então adolescente substitui o pequeno tambor de brinquedo por um pandeiro e assim nasce o músico Sergio Oliveira Pereira.

Autodidata de ouvido apurado, adota o rádio como fonte onde busca suas referências musicais.  Nesta ocasião descobre o programa O Samba Pede Passagem do consagrado Moisés da Rocha. O programa se torna o cálice onde sacia sua sede de músico aprendiz. Foi ouvindo o programa de Moisés que Sergio ouviu pela primeira vez Martinho da Vila, ficando fascinado pela obra do sambista da Vila Isabel e assim passa a incorporar toda obra de Martinho ao seu repertório.

Com o samba fervilhando nas veias, Sergio reúne alguns amigos e forma um grupo com o qual passa a tocar pelos bares da Zona Leste paulistana. Líder nato, carismático e dono de uma voz marcante, vai construindo uma rede de amigos e simpatizantes por onde se apresenta com o grupo de amigos.

Ao conhecer as religiões de matrizes africanas, Sergio sente haver alguma conexão entre sua musicalidade e os toques dos terreiros. A energia que vibrava no menino com seu tambor ressurge ao ouvir o som dos atabaques. O resultado não poderia ser outro, nasce um Ogãn.

A inquietação musical que corre em suas veias não lhe permite acomodação, sente grande necessidade de extravasar sua vocação pela música. Com sua emoção contagiante passa a influenciar os irmãos Paulinho Oliveira, Renata Oliveira e Camila Elisa a seguirem seus passos e desta união familiar e mais alguns amigos é criada a Banda Comitê do Soul que a mais de uma década faz o público balançar com um som black recheado de muito Swing.

De natureza insaciável, e comportamento polivalente Sergio não se contenta com pouco.

Em sua caminhada abraça outros trabalhos artísticos e de militância em prol das causas do povo preto, tendo atuado durante alguns anos nas atividades desenvolvidas pela Igreja Nossa Senhora dos Rosário dos Homens Pretos da freguesia da Penha de França, e idealizador da Roda de Samba do Largo do Rosário, cujo trabalho de resistência e valorização da ancestralidade negra foi capaz de tornar a pequena igreja em referencia para o movimento negro na cidade de São Paulo.

Não há como ilustrar com clareza a caminhada deste líder negro nas poucas linhas deste blog.

Encerro salientando que sua vida vibrante ainda agrega uma carreira de gestor em TI em uma grande empresa de telecomunicação, defensor e interprete de samba enredo, tendo passado por escolas de samba como Dom Bosco de Itaquera, Nenê de Vila Matilde, Vai-Vai, dentre outras, além dos cuidados indispensáveis de pai e marido.

Osmar Moura

dezembro de 2018

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